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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Cândido, ou o Otimismo

Voltaire foi um importante filósofo do Iluminismo Francês, suas obras e idéias Liberalistas tiveram grande repercussão na Revolução Francesa e na Independência dos Estados Unidos. Voltaire era seu pseudônimo, seu verdadeiro nome era François Marie Arouet, nasceu em Paris, em 21 de Novembro de 1694 e morreu, também em Paris, em 30 de Maio de 1778.

O problema do mal sempre inquetou Voltaire e dentre suas Obras há uma que trata, específica e explicitamente, do mal: “Cândido, ou o Otimismo”, publicada em 1759, narra a história do protagonista Cândido, pupilo do Dr. Pangloss que lhe ensina a ver tudo pela ótica otimista, preceituando que estamos no "melhor dos mundos possíveis".

Cândido morava em um castelo, do qual foi expulso por cortejar a filha do proprietário, a bela Cunegundes. A partir de sua expulsão, Cândido viaja pelo mundo inteiro, até que ele encontra um sábio, Martinho, que passa a ser seu companheiro de viagens. Martinho é um maniqueísta convicto e, ao contrário do Dr. Pangloss, assinala que, no mundo, há o bem e o mal, mas que este último sempre prevalece.

Em sua jornada, sempre filosofando sozinho ou com Martinho, em busca da bela Cunegundes, que teve seu castelo destruído e foi obrigada e se prostituir para sobreviver, Cândido vivenciou diversas mazelas e desgraças que o fizeram questionar os ensinamentos de seu preceptor, aos quais tanto se apegava. Ao final, Cândido encontra, ainda, um derviche muçulmano ceticista, que afirmava nada saber e passou a vida cuidando de sua propriedade e de sua família, e que afirma que cabe ao homem trabalhar, apenas, que nada se pode fazer se há, no mundo, mal ou bem.

Em “Cândido, ou o Otimismo” Voltaire critica o filósofo Gottfried Wilhelm von Leibniz (nasceu em Leipzig, em 1 de julho de 1646 e moreu em Hanôver, em 14 de novembro de 1716). Para Leibniz, em sua obra “Ensaios de Teodicéia” Deus seria um ser cognitivo perfeito (racional e bondoso) e, portanto, não poderia agir contra a sua própria essência, uma vez que cairia em contradição. Assim sendo, Deus, a partir de critérios lógicos fundamentais, criou o melhor dos mundos possíveis, ou seja, Leibniz sustenta que o mundo criado por deus não poderia ser melhor do que este em que vivemos, pois se assim o fosse, se houvesse a possibilidade de um mundo melhor do que este que foi criado, isso entraria em choque com a natureza de Deus.

Em uma análise mais filosófica do livro poder-se-ia supor que o Dr. Pangloss representaria Leibniz, e o derviche ceticista, o próprio Voltaire; pois o mal, para Voltaire, não é metafísico, mas sim social. Deve-se superá-lo com trabalho e com a razão, Voltaire diz, no livro, através do derviche, que "o trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade”.

Cândido seria a figura do “filósofo ignorante”, criada por Voltaire, que reconhece os limites da razão para questionar e contestar sem nunca encontrar uma resposta satisfatória; pois Cândido passa a questionar o otimismo do Dr. Pangloss, ao mesmo tempo em que não aceita o Maniqueísmo de Martinho nem se convence por completo do ceticismo do derviche.

Voltaire, em sua Obra, acaba por fazer ao leitor o mesmo que fez a Cândido: os desperta para a vulnerabilidade, fragilidade e insegurança de tudo aquilo que parece certo e estável no mundo que os cerca. Cada leitor torna-se, também, um “filósofo ignorante”, que passa a questionar as verdades tidas como certas e absolutas, filosofia que vem sido defendida desde Sócrates.

Com relação ao Mal, de acordo com a Professora Maria das Graças S. do Nascimento, em seu livro “Voltaire, a razão militante”, existem, em “Cândido, ou o Otimismo”, três alternativas para se responder ao problema do mal. A primeira reside no pensamento mágico de Pangloss, onde os males são necessários em favor do bem maior, o que se verificou ser inverossímil no decorrer da obra, vez que não se chegou a um bem maior em momento algum; de fato, Cândido casou-se com Cunegundes, como planejava no início, mas contra a sua vontade, pois ela já se encontrava desgastada, feia, rabugenta e insuportável.

A segunda é suscitada por Martinho, companheiro de Cândido, pois para ele, tudo no mundo é regido por dois princípios, o bem e o mal (Maniqueísmo), sendo que o segundo se sobrepõe sempre ao primeiro, ou reprime qualquer bem incluso no curso dos acontecimentos.

A última alternativa, por sua vez, é apresentada pelo derviche muçulmano ceticista, que diz ao Cândido e ao Dr. Pangloss que diante de todo o mal que há na Terra a única coisa a fazer é calar-se.

Verifica-se, na Obra, a presença do mal por toda parte, não havia possibilidade de a história de Cândido ser mais repleta de mazelas e infortúnios, depois de sair do “melhor dos mundos possíveis” (o castelo em que ele morava com o Dr. Pangloss) ele participou de guerras, foi chicoteado, viu o Dr. Pangloss ser enforcado e dissecado, foi roubado, preso e torturado, tudo com grande requinte de crueldade, e casou-se com Cunegundes já deformada por seguidos estupros e tentativas de assassinato.

Em sua odisséia pelo mundo Cândido encontrou várias pessoas que enfrentaram, assim como ele, uma teia de infortúnios, desde ladrões até reis, e ao final ele encontra o derviche que de todos se mostrou o mais contente com sua condição; o derviche, que passara a vida a cultivar sua propriedade e cuidar de sua família.

O jovem e inexperiente Cândido viu que a vida é cruel e que se este é o “melhor dos mundos possíveis”, conclui, “devemos cultivar nosso jardim” – frase que encerra a Obra – pois como ensinou o derviche, e repetiu Martinho, devemos trabalhar, pois, além de afastar o homem dos males, esta “é a única maneira de tornar a vida suportável”. Observa, ainda, o Dr. Pangloss, que quando o homem foi posto no Jardim do Éden, foi posto para que lá trabalhasse e não para que ficasse em repouso.

A conclusão é que o mal é inevitável e estará sempre presente no mundo, admitamos ou não, em quantidade maior para alguns – os menos afortunados – e menor para outros!

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O ESTABELECIMENTO DO DIREITO DE PROPRIEDADE: A QUESTÃO DO MAL NO SURGIMENTO DA DESIGUALDADE E DA SOCIEDADE CIVIL
Jean Jacques Rousseau e Pierre Clastres



Nas sábias palavras do grande contratualista genebriano Jean Jacques Rousseau, “o primeiro que, cercando um terreno, se lembrou de dizer: isto me pertence, e encontrou criaturas suficientemente simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Que de crimes, de guerras, de assassinatos, que de misérias e de horrores teria poupado ao gênero humano aquele que, desarraigando as estacas ou atulhando o fosso, tivesse gritado aos seus semelhantes: “guardai-vos de escutar esse impostor! Estais perdidos se vos esqueceis de que os frutos a todos pertencem e de que a terra é de ninguém!”

No esforço para expor a origem e o progresso da desigualdade Rousseau identificou o estabelecimento da lei e do direito de propriedade como o primeiro termo, de sorte que o estado de rico e de pobre foi autorizado nesta primeira época do desenvolvimento da desigualdade.

O direito de propriedade é fruto da convenção e instituição humanas, criado, segundo Rousseau, com o surgimento da sociedade civil, que começada exigia dos homens qualidades diferentes das que eles possuíam de sua constituição primitiva. Começando a moralidade a introduzir-se nas ações humanas, e sendo cada qual , antes das leis, o único juiz e vingador das ofensa recebidas, a bondade conveniente ao estado natural puro não mais convinha à nascente sociedade, que se fazia preciso que as punições se tornassem mais severas à medida que as oportunidades de ofender aumentavam de freqüência; e que, devido ao terror da vingança, se fazia necessário o freio das leis.

Destarte, bastou alguns discursos para seduzir homens grosseiros, fáceis de convencer, e que, de resto, tinha excesso de problemas a resolver entre si para dispensarem árbitros, e excesso de avareza e ambição para se eximirem de senhores.

Tal foi o deveu ser a origem da sociedade e das leis, que segundo Rousseau, criaram novas peias para o fraco e novas forças para o rico, destruíram sem possibilidade de retorno a liberdade natural, fixaram para sempre a ordem da propriedade e da desigualdade, que, de uma astuciosa usurpação, fizeram o direito irrevogável, e, para proveito de alguns ambiciosos, sujeitaram, daí em diante, todo o gênero humano ao trabalho, à servidão, à miséria.

Apesar de a desigualdade já existir no estado natural ela seria apenas sensível e sua influência era quase nula. Então Rousseau procurou demonstrar a origem e os progressos da desigualdade nos sucessivos desenvolvimentos do espírito humano.

Pierre Clastres, em “A Sociedade Contra o Estado”, reforça a importância desta reflexão, já que, segundo ele, não há dúvida de que uma reflexão ou uma pesquisa sobre a origem da desigualdade, no sentido de que as sociedades primitivas são precisamente sociedades que impedem a diferença hierárquica, possa alimentar uma reflexão do que se passa em nossas sociedades na atualidade.

A questão da obediência exposta por Rousseau é problematizada por Clastres, segundo o qual, é a divisão entre os que comandam e os que obedecem a primeira divisão, aquela que funda todas as outras, ou seja: o Estado. A divisão da sociedade entre os que têm o poder e os que se submetem ao poder.

Tanto Rousseau com Clastres fazem referências a pequenas sociedades para investigar a questão da origem do poder político. A questão da origem da relação de poder, da origem do Estado, para Clastres, é dupla, no sentido de que há uma questão da parte de cima e uma questão da parte de baixo. A questão de cima é: o que faz que em algum lugar, num dado momento, um sujeito diga “sou eu o chefe e vocês vão obedecer”? É a questão do topo da pirâmide. A questão de baixo, da base da pirâmide, é: por que as pessoas aceitam obedecer, quando um sujeito ou um grupo de sujeitos não detêm uma força, uma capacidade de violência suficiente para fazer reinar o terror sobre os outros?

Pierre Clastres, na pesquisa antropológica da chefia indígena, esclarece que nas sociedades primitivas não há nenhuma obrigação, ao menos nas relações sociedade/chefia.O único que tem obrigações é o chefe. Ou seja, é rigorosamente o contrário, o inverso total do que se passa nas sociedades onde há o Estado.

Segundo Clastres, em nossos países, é o contrário; é a sociedade que tem obrigações em relação a quem comanda, o déspota, que não tem nenhuma obrigação, porque ele tem poder. Então, o poder quer dizer precisamente: “As obrigações, agora, não mais são minhas, são de vocês”. Na sociedade primitiva, é exatamente o contrário.

Por fim, pode-se concluir com Rousseau que a desigualdade, sendo quase nula no estado natural, tira sua força e seu acréscimo do desenvolvimento de nossas faculdades e dos progressos do espírito humano, e se torna enfim estável e legítima pelo estabelecimento da propriedade e das leis. Conclui-se ainda que a desigualdade moral, autorizada pelo simples direito positivo, é contrária ao direito natural todas as vezes que não coincide na mesma proporção com a desigualdade física, distinção que determina suficientemente o que se deve pensar a este respeito da sorte de desigualdade reinante entre os povos policiados, uma vez que é claramente contrário à lei natural, não importa a maneira por que se defina, um imbecil conduzir um sábio, e um punhado de gente extravasar superfluidades, enquanto à multidão esfaimada falta o necessário.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

A Teodicéia e a Liberdade Humana

O termo Teodicéia, criado pelo filósofo alemão Gottfried Leibniz em 1710 e que em grego significa “justiça de Deus”, pode ser definido como uma tentativa de justificar, utilizando-se somente da razão humana, o comportamento de Deus com o objetivo de encontrar uma resposta ao problema do mal. Para tanto, Leibniz parte da ideia de Deus como um ser cognitivo perfeito, e que, portanto, não poderia agir contra a sua própria essência, uma vez que cairia em contradição. Assim sendo, Deus, a partir de critérios lógicos fundamentais, criou o melhor dos mundos possíveis. Dessa forma, como explicar a presença do mal em um mundo criado por um Deus racional e bondoso?

Segundo Leibniz, a presença do mal é verificada de três formas: o mal metafísico, o mal moral e o mal físico. O primeiro deles, o mal metafísico, parte do pressuposto de que somente Deus é um ser perfeito, logo, todos os demais seres, por serem dotados de imperfeições nas suas essências, não podem ser puramente bons como Deus. O mal metafísico, seguindo o raciocínio do filósofo, consequentemente gera outro mal, o moral, que é facilmente percebido no nosso cotidiano, principalmente em atitudes vingativas, quando ocorre por exemplo troca de tiros entre policiais e bandidos em uma favela, culminando com a morte de uma pessoa inocente, fazendo com que o parente da vítima, por ódio aos policiais, termine por ingressar na prática de crimes e acabe roubando uma outra pessoa que, por sua vez, passa a querer uma maior punição aos criminosos como forma de retaliação, gerando um ciclo. O último mal, o físico, é também consequência do mal moral, como forma de sua punição.

Não obstante todas as atrocidades presentes no mundo, Deus nos concebeu o melhor dos mundos possíveis, de modo que o mal que existe no mundo é o mínimo necessário para a maximização do bem. Tal qual o conceito da filosofia chinesa do “yin yang”, bem e mal são opostos complementares, ambos com grande importância. Se um deixasse de existir, o outro também desaparecia, restando o nada, assim como só é possível dizer que existe compaixão a partir da existência da ideia de sofrimento, que só existe coragem porque existe covardia, e que só existe felicidade por existir tristeza.

Leibniz então, acredita que Deus só permite a existência do mal como condição para atingir bens muito maiores, e é por isso que nos foi conferido o lívre-arbítrio. O mal é intrínseco ao ser humano, mas ele existe apenas de forma a permitir que o homem seja livre nas suas escolhas, tendo em vista que a existência do mal em nós é melhor do que a falta de liberdade.

Portanto, concluo o texto dizendo que não cabe a nós, seres humanos, escolhermos se iremos nascer e viver em épocas boas, de paz e harmonia, ou em épocas de guerra, violência e crueldade. Cabe a nós, tão somente, escolher o que fazer com o tempo que nos é dado. São as nossas escolhas que definem a nossa vida, a nossa personalidade e o nosso caráter. São essas escolhas que, não sendo feitas de forma racional e responsável, conduzem o ser humano à prática do mal. É a liberdade de opções que nos permite escolher se queremos ser 99% bons e 1% maus, ou se queremos ser mais maus do que bons. A ideia é bem aquela presente no vídeo abaixo, trecho do filme “Matrix”, em que podemos decidir para que lado nossas atitudes influenciarão nessa balança. Se insistiremos em influenciá-la positivamente sabendo que o mal nunca irá deixar de existir, ou se influenciaremos de forma negativa, ou então se iremos abdicar de fazer nossas de escolhas.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O retorno ao “estado de natureza” de Thomas Hobbes

Ao longo de toda a história da humanidade, a sociedade tem se deparado com inúmeros acontecimentos aterrorizantes, e na maioria das vezes, causados pelo próprio ser humano. Segundo o site da folha on line (http://www.folhaonline.com.br/), podemos citar alguns desses acontecimentos mais recentes: no último dia 4 de setembro, um bombardeio aéreo das forças da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), sob o comando de oficiais alemães, matou 30 civis e 69 militantes do grupo islâmico radical Taleban; autoridades informaram, neste domingo (13/09/2009), que médicos tiveram que amputar a perna de um garoto indiano de 13 anos que foi jogado de um trem em movimento por um policial. A suspeita é de que o menino, que vendia comida no trem, não tinha dinheiro para pagar suborno ao agente; prefeito da oposição é morto a tiros na Venezuela; o britânico Mark Kane, de 19 anos, foi filmado colocando um gato em uma bolsa, inalando maconha de um cachimbo improvisado e depois soprando a fumaça dentro do saco onde o gato estava. Então, ele fechava o saco e o girava. O vídeo foi enviado pela Sociedade Real para a Prevenção da Crueldade aos Animais (RSPCA) à justiça; foi preso no dia 17 de agosto de 2009 o médico Roger Abdelmassih, um dos mais famosos especialistas em reprodução assistida no país. O médico teve a prisão preventiva decretada pela justiça após cerca de 60 mulheres afirmarem ter sofrido crimes sexuais durante consultas. Diante de tais fatos, somos levados a refletir se, como costumava dizer o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), “o homem é o lobo do próprio homem” (homo homini lupus). Talvez, como dizia Hobbes, a maldade seja inerente ao homem, faça parte da essência humana e, por isso o ser humano nunca deixe de praticá-la, exceto por uma questão de puro e simples egoísmo, quando for conveniente a si mesmo.


Estabelecendo-se um paralelo com a filosofia hobbesiana, segundo a qual é indispensável a existência de um contrato entre homens e Estado, para que aqueles transfiram seu poder de governar a si próprios a um terceiro (o Estado, no caso), para que esse governe a todos, impondo ordem, segurança e direção à conturbada vida social, de modo que o permanente “estado de guerra” possa ser, ao menos, um pouco contido; a sociedade contemporânea também faz uso de uma espécie de contrato, não aquele concebido por Hobbes no Estado Absolutista, mas um contrato em que indivíduos e Estado possuem direitos e obrigações, tal contrato é “imposto” aos indivíduos, os quais não tem direito de decidir se querem ou não aderi-lo. O contrato da atualidade também visa a convivência harmônica em sociedade uma vez que conforme exposto acima a maldade talvez faça parte da essência do homem, nas suas diversas faces: egoísmo, sarcasmo, vontade de fazer mal ao outro, prejudicar o próximo para si beneficiar, frieza, revolta, sentimentos de ódio, vingança e inveja, dentre inúmeras outras; e se, ao ser humano a maldade não é inerente, ela se encontra, com certeza, muito próxima a essa definição. Entretanto, cabe aqui diferenciar o contrato moderno do contrato contemporâneo na medida em que naquele, o Estado impunha ordem, segurança e neste, a ordem e a segurança, apesar de serem deveres do Estado e de não serem mais impostas por ele, e sim determinadas por forças normativas feitas pela própria sociedade, muitas vezes não são garantidas por esse mesmo Estado. Ora, se aos indivíduos cabe um contrato de cumprimento “compulsório” e que se não cumprido, são impostas sanções às pessoas infratoras, ao Estado infrator nada cabe. A sociedade inúmeras vezes tem que se adaptar às novas regras que acaba por gerar uma mudança na vida das pessoas, uma mudança de hábitos como assim desencadeou a “lei seca”, é a famosa “diligência normativa” e o Estado, em contrapartida não cumpre a sua parte e não sofre conseqüências diretas por isso, na verdade, as conseqüências recaem sobre a própria sociedade que sofre duplamente por isso: primeiro, por estar vinculada a um “contrato” e não poder rompê-lo e segundo, por não deixar de viver no que poderia ser chamado de, assim chamou Hobbes, “estado de guerra”. Dessarte, os indivíduos além de terem a sua “maldade” coibida e, por isso, não poderem agir como “bem entenderem” diante das circunstâncias, ainda são obrigados a conviver e sofrer com a maldade paralela, não constrangida e não vigiada pelo Estado. Sendo assim, a tendência das pessoas é se fechar em suas casas, fazer a sua segurança particular, desacreditar do Estado e da força desse “contrato” e, por que não, liberarem o seu instinto do mal até o ponto em que voltariam a viver em seu mais puro “estado de natureza”.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Inatividade Desastrosa

A cena é típica: judeus esqueléticos de semblante cadavérico e fisionomia doentia, amontoados num cubículo escuro. A crueldade do holocausto é bem conhecida através de superproduções cinematográficas, documentários e livros. Pode-se inclusive perceber que já não causa mais tanto espanto e horror. Mas a perplexidade diante do reconhecimento das proporções as quais podem atingir a maldade humana ainda se faz presente, mesmo que de maneira menos acentuada.

Após a Segunda Guerra Mundial, para explicar esse fenômeno foi necessário revisitar as concepções do mal até então conhecidas. Nesse momento, ganha destaque o conceito de mal radical proposto por Kant, muito antes da 2ª Grande Guerra e que, quando foi apresentada sofreu diversas críticas. Porém, mais tarde, muitos apontaram esse seu conceito como uma “profecia” dos eventos que o mundo ainda estava por assistir. Para Kant, o homem tem uma propensão inata para o mal e o bem decorre da livre determinação da razão. Quando se abandona essa liberdade, o homem se inclina para o mal na busca de sua satisfação imediata.
Hannah Arendt, por sua vez, na tentativa de compreender as práticas nazistas, retoma o mal radical de Kant e lhe dá uma dimensão mais abrangente já que discorda que seja ele uma "vontade pervertida que poderia ser explicada por motivos compreensíveis." Para ela, o fenômeno totalitário só pode ser explicado de acordo com o processo pelo qual os homens se tornaram “supérfluos”, meros instrumentos destes regimes incapacitados de pensar. Foi essa incapacidade que impossibilitou o movimento de se colocar no lugar do outro, gerando a inércia da população diante das atrocidades cometidas. Constrói-se a percepção da banalidade do mal.

Hoje, já não mais existem campos de extermínio. Nos meios intelectuais impera um discurso de respeito ao próximo e suas diferenças. A eliminação de vidas através de uma atuação positiva do Estado é valorada negativamente e, mesmo em situações de conflitos internacionais, tal atitude é vista com reservas. Porém, a capacidade do homem de se preocupar efetivamente com o próximo na vida cotidiana vem se mostrando cada dia mais fraca. Embora ainda seja mascarada por algumas atividades assistencialistas, que o homem comum delas se utiliza como alívio para própria consciência.

Contudo, a habilidade para ver a humanidade como um todo e se sentir responsável por pelo menos uma parcela considerável deve ser questionada. No Brasil, para nos atermos apenas a um exemplo mais próximo, a alienação perante os problemas sociais é observada no ínfimo envolvimento político da maioria esmagadora da população. É um círculo vicioso no qual a classe média se preocupa primeiramente em obter seu lugar ao sol, os mais ricos em manter a posição dominante e os menos favorecidos em sobreviver. De modo que o que não atinge diretamente o indivíduo, não merece ser alvo da sua atenção. Os idealistas, mais do que nunca, são vistos como seres iludidos pela perspectiva de que podem ajudar a atenuar de maneira significativa os problemas sociais, mesmo que seja em apenas um ramo de seus desdobramentos.

O afastamento da realidade que vai além dos próprios interesses provoca uma inércia geral que, guardadas as devidas proporções (que não são tão diferentes assim!), em muito se assemelha à população alemã durante a 2ª Grande Guerra. As milhares de pessoas que morrem todos os anos vítimas de violência urbana, falta de atendimento médico e fome chegam a números alarmantes, mas que nem de perto desperta a perplexidade e a aversão que os campos de concentração causaram no pós-guerra.

Seria possível então afirmar que as mazelas da sociedade brasileira, mais do que representações do mal, são repercussões de um mal maior (ou mal radical como compreendido por Hannah Arendt) existentes nas presentes gerações que são capazes elaborar inovações tecnológicas surpreendentes e impossibilitadas de ver no outro algo além de obstáculos ou instrumentos para o alcance de seus objetivos individuais.

De minha parte, continuo esperando que a limitada classe de idealistas consiga inspirar nos demais a necessidade de se questionar a situação atual da humanidade nos seus vários aspectos a fim de buscar benefícios que fujam da esfera meramente individual.

sábado, 12 de setembro de 2009

Ai vai um toque de Rousseau

Não sei se deixa a desejar, mas Rousseau, inveterado otimista, acreditava no homem como essencialmente bom, o caráter essencialmente político-pedagógico de suas obras demosntrava a importância que dava à educação. Para ele a infância é o momento essencial para educação, devendo-se levar em conta a ingenuidade e a inconsciência que marcariam a falta da mentalidade adulta para uma adequada educação voltadada para o método natural.
Diante de tal, não sei se podemos julgar com tanto rigor aqueles que por 72 virgens matam tantos outros, não poderiamos nos comover tanto com as pobres mães chorando a morte de seus terroristas, afinal, são elas mesmas, que desde a mais tenra idade passam tais valores e ideologias, a opressão socio-cultural que sofrem, pode-se equiparar a lavagem cerebral. O núcleo familiar, de fundamental importância para douto filósofo só confirma nossos temores, a globalização e a desinformação, além do fanatismo cria aqueles que vem, paulatinamente nos destruindo.
O paradoxo liberdade/autoridade em sua obra mostra-se utópica em nossa sociedade, o respeito, moral e amor ao próximo que vislumbramos em suas idéias parecem não se adaptar aos preceitos ideológicos atuais. O capitalismo desenfreado não permite igualdade entre os mais diversos povos, a massificação, a uniformização, a especialização e, sobretudo, a alienação atual desfiguram valores etico-morais. Como fruto de tudo isso, temos o horror.
Assim, o que seria falar do mau? E do bom? Será que a época do horror vai acabar? Como conciliar tantos contrastes? Para Rousseau o bom é inerente ao homem, mas como acreditar nisso vendo tanta injustiça e opressão?
Parece piegas, até porque tirado de uma novela, mas isso não tira toda sua poesia e razão, assim afirmar que o bem e o mal devem andar juntas para que se possa optar entre elas, mais do que nunca se enquadra no contexto atual. É preciso seguir a risca a idéia desse otimista, que vê no próprio homem a solução para o mal. Devemos investir na educação, nos jovens, eliminando todas as distorções. Assim, quando ouvirmos que Guerra Santa está sendo travada, que esta não seja contra as diferentes religiões ou ideologias, mas que lute contra a IGNORÂNCIA, contra a DESIGUALDADE, contra a INTOLERÂNCIA e o PRECONCEITO. Que o termo faça jus a sua origem, que a JIHAD seja uma guerra, uma luta, mas como preceituado por Santo Agostinho, que ela seja JUSTA.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Um quê de Nietzsche

A data de hoje, desde o ano de 2001, traz consigo uma pesada atmosfera; um quê de olhar para os lados e, principalmente, para o alto. Um quê de desconfiança, de pesar, de gosto e desgosto. Ousado, porém não errôneo, seria dizer que o dia de hoje carrega um quê de Nietzsche.

Filósofo nascido a 15 de outubro de 1844, Friedrich Wilhelm Nietzsche foi filho de pai delicado e culto, de quem ficou órfão muito novo – aos cinco anos perdeu não só o pai como, também, seu irmão. Por conta dessas perdas, se mudou de Röcken – sua cidade natal – ,com a família, para a pequena cidade de Naumburg, onde cresceu com sua mãe, duas tias e sua avó. Neto de avós pastores presbiterianos, pensava em seguir a mesma carreira. Na escola, seus amigos o chamavam de “pequeno pastor”. Vida calma, família, até onde se sabe, estruturada; Nietzsche gozou de uma infância feliz e tranquila.

Tranquila também era uma nação que, no ano de 2001, estava, há muito, no topo do mundo: os Estados Unidos da América no Norte seguiam na feliz posição de potência mundial. Economia forte, status de poder e de oportunidades, o capitalismo seguia como sua maior fonte de inspiração e, principalmente, riqueza. E, ainda que se trate de uma nação relativamente nova, pode-se dizer que também tinha tido sua infância feliz - ainda que tenha levado cicatrizes, como a Guerra se Secessão e a queda da bolsa de 1929, os tombos não comprometeram seu feliz crescimento.

Nietzsche seguiu se enveredando pelo mundo acadêmico-filosófico ao longo da vida. Estudou Teologia e Filosofia, mas abandonou tais estudos para de se dedicar à Filologia. Porém seu interesse aos estudos filosóficos retornaria de forma intensa e definitiva ao conhecer os pensamentos de um certo filósofo que se tornou uma de suas maiores fontes de estudo: a leitura de “O Mundo como Vontade e Representação” de Schopenhauer (1788-1860) , e seu característico ateísmo, acabaram por revolucionar o pensamento e o filosofar de Nietzsche – algo havia mudado em sua, até então, pacata e ilustre história.

De volta ao ano de 2001, mais precisamente numa manhã de terça feira. Aparentemente mais um dia de rotinas e afazeres e, sendo assim, manhã de acordar cedo e correr contra o tempo - que a modernidade fez significar dinheiro. O funcionamento da vida seguia na mais fosca trivialidade, bem como o funcionamento dos prédios comerciais e aeroportos: às 07:58, horário de Boston, sobe aos ares um Boeing 767 da United Airlines, transportando 65 passageiros, com destino a Los Angeles; às 07:59 segue, da mesma companhia de aviação e com o mesmo destino, outro Boeing 767, este levando 92 pessoas em seu interior. Às oito horas, ritmo frenético na capital do mundo – New York. Trabalhadores adentram o gigante complexo do World Trade Center para fazer, cada um, a sua parte e manter o coração do mundo pulsando.08:01 é a vez da American Airlines levar 46 pessoas à São Francisco em um Boeing 757, ação repetida às 08:10, com 66 pessoas e tendo como destino Los Angeles. Apesar de vôos aparentemente comuns, a peculiaridade de alguns de seus passageiros e a fidelidade destes para com seus objetivos garantiriam que uma mudança drástica acabaria por ocorrer em sua, até então, também pacata e ilustre história.

Após a influência de Schopenhauer, Nietzsche começou a criticar, de forma cada vez mais veemente, o pensamento socrático-platônico e especialmente o cristianismo, o que faria de forma cada vez mais incisiva até o fim da vida. Apesar de ter rompido com aquele que o fez voltar aos estudos da Filosofia, seguiu cada vez mais cético, ríspido e só. Dizia que o mundo é um vale de lágrimas e sofrimento e que o cristianismo nada mais era que uma ilusão, uma forma de disfarçar a tenebrosa realidade e iludir o que crê, fazendo-o acreditar na bondade e na alegria da vida terrena – coisas que, para ele, não existem. Assim agia Platão na antiguidade: idealizava algo que não existia, algo perfeito e eterno, para maquiar a verdade disforme e cruel. Daí a necessidade vista por Nietzsche de matar Deus. A morte de Deus é a morte de um horizonte metafísico, que se baseia na dualidade entre verdade e hipocrisia, entre bem e o mal. A inversão de valores para ele é clara: no mundo, o agir bem significa ser submisso, ser fraco, vestir as máscaras que os poderosos impõem sob o pretexto de ser esse o caminho para se encontrar a ficta e infértil felicidade. Já o mal é romper, é escavar o submundo do pensamento humano, é “fazer falar aquilo que gostaria de permanecer mudo” e esta tarefa Nietzsche toma para si : "munido de uma tocha cuja luz não treme, levo uma claridade intensa aos subterrâneos do ideal".

Se a realidade é verdadeiramente infecta como dizia Nietzsche, e nela o homem fraco – que, para ele, seria a enorme maioria deles – estava cegamente imerso, o rumo tomado naquela manhã de terça feira tem sua explicação filosófica. Ás 08:48 um dos Boeings se chocou contra o 100º andar do World Trade Center. Ás 09:03, a segunda torre é atacada por outro “imenso pássaro de ferro”. A primeira torre foi ao chão às 09:59, e a segunda, às 10:28. O Boeing que decolara às 08:10 se chocava, às 09:43, contra o Pentágono, a 3km da Casa Branca, e o que decolara às 08:01 caiu às 10:10 em Shanksville, Pensilvânia, supostamente derrubado pelos próprios passageiros, que brigaram com os terroristas. Talvez Deus, para escapar do assassinato de Nietzsche, tenha mudado sua identidade para Alá e, então, invertido de vez os valores.

Em nome de uma realização duvidosa – um paraíso com 72 virgens à espera daqueles que se sacrificam por Ele -, milhares de vidas foram eliminadas e o pior, talvez, ainda estivesse por vir: "Não se trata apenas de capturar essas pessoas e fazer com que paguem pelo que fizeram (...), é preciso também eliminar os santuários, os sistemas de apoio e acabar com os Estados que patrocinam o terrorismo", disse Paul Wolfowitz, subsecretário de Defesa. O mau virou eixo, alvo marcado e atacado, vitimando ainda mais inocentes. A definição de mau nietzschiana, de repente, pareceu profecia.

Daí a problematização de o mal ser algo que, de certa forma, se impõe no dia de hoje. Para Nietzsche, o bem é o mal disfarçado e, ele sim, é a regra, não a exceção; a promessa de paraíso é a desculpa perfeita para o domínio e a escravização daqueles que são fracos para, até mesmo, perceber o que se passa. E, no episódio relembrado na data de hoje, talvez o filósofo ora estudado teria sua mais clara comprovação, a sua mais elementar prova, capaz de sustentar seu argumento de uma forma tristemente irrefutável.

Dedico este singelo e despretensioso artigo a todos aqueles que, de alguma forma, tiveram um pouco de Nietzsche no seu dia hoje e que, ainda assim, seguem esperando dias mais pincelados por Rousseau.

Um terrorista sequestra 20 pessoas em um shopping e as esconde dentro de uma sala. Nesta sala os reféns encontram-se amarrados à explosivos de grande capacidade destrutiva. Os agentes policiais recebendo o chamado prontamente se dirigem ao shopping. Ao chegar ao local estabelecem contato com o terrorista, que demanda várias exigências a serem cumpridas para a liberação dos reféns vivos, entretanto em nenhum momento conseguem ver quem está ao telefone. O comandante da operação dada a situação de grande perigo decide ordenar a invasão e acaba por prender um rapaz com as mesmas características que foram apresentadas na ligação anônima denunciando o delito, entretanto não encontram os reféns. Posteriormente a captura, começam então os policiais a perguntar ao rapaz aonde estavam os reféns. Nenhuma resposta é encontrada, uma vez que o rapaz recusava a dar as informações, sob a alegação de que não era o terrorista e portanto não sabia a localização do cativeiro. O comandante diante das alegações do jovem tenta estabelecer contato com o telefone, o qual antes o terrorista vinha utilizando, mas a ligação não é atendida. Tendo em vista o prazo estabelecido pelo terrorista, a situação começa a se agravar diante da iminente explosão caso não sejam encontrados os reféns. O Comandante nesse momento se depara com um dilema moral, filosófico e legal:

Deve torturar o rapaz em busca das informações abandonando assim o respeito à dignidade humana, sobrepondo o comunitarismo em face do liberalismo, ou até mesmo praticando um ato ilegal, que resultará na salvação de muitas outras vidas? O que você faria?

Em que momento um ser humano realizou o ato mais cruel?

Qual é o pior dos sete pecados capitais?

Qual sua opinião a respeito da legalização do uso de drogas?